Pensando errado

Publicado em 04/01/2012

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Tomei o título de uma expressão do professor Paulo Freire, que diz em Pedagogia da Autonomia que um dos trabalhos do professor é ensinar a pensar certo. Não vou entrar na complexa questão de o que significa pensar certo para Paulo Freire, só vou pinçar uma das características do pensar errado: manter e perpretar preconceitos. No caso que eu vou tratar aqui, preconceito linguístico.

Na edição desta manhã, o Bom Dia Brasil, da Rede Globo, veiculou a notícia de que algumas escolas que oferecem ensino básico a distância em Brasília foram descredenciadas pelo Conselho de Educação do Distrito Federal. O motivo: não-cumprimento das condições iniciais de credenciamento exigidas pelo Conselho. A reportagem também apresenta a gravação de um telefonema de um jornalista para uma das escolas descredenciadas. Na gravação, a atendente da escola fala sobre os cursos e as avaliações necessárias para a obtenção do diploma.

Descobriram-se irregularidades e as escolas foram punidas. Ponto para os órgãos fiscalizadores.

O problema está no comentário de Alexandre Garcia sobre o caso, que começa com o motivo deste post, que começa pensando errado: “Pelo que se nota no telefonema que a gente ouviu, esse telefonema do ‘tá fazendo’, ‘tá optando’, o nível é baixo: o nível da pobreza vocabular, do abominável gerundismo.”

Por que atacar a fala da atendente da escola? Não é como se não houvesse quaisquer provas contra as escolas descredenciadas. Elas já foram descredenciadas exatamente porque não atendem aos requisitos mínimos para serem escolas. Ou seja, tem-se argumentos contra elas. Então, por que associar “pobreza vocabular” à corrupção dessas escolas? (E por que “pobreza”?)

Isso é pensar errado: o comentário do jornalista poderia ter sido ético, poderia ter sido limpo, poderia ter tratado dos fatos e de possibilidades a partir deles. Mas o que o comentário faz é jogar sujo, é atacar as escolas não pela corrupção dos seus atos, mas pela fala de suas atendentes. Isso é vileza intelectual, que não faz nada além de perpetrar o preconceito linguístico exacerbado em nossa sociedade.

Deixem eu explicar: nada há de errado com o infame gerundismo. O uso do gerúndio está é certo. O que o Alexandre Garcia e outros como ele não gostam é da acumulação de verbos auxiliares na frente do gerúndio. Especialmente quando o verbo indica uma ação pontual, como no caso de “optar”. Mas, como nos lembra Marcos Bagno, isso muda um pouco quando o verbo indica uma ação não-pontual, contínua: será mesmo um problema mandar uma pessoa levar o guarda-chuva, já que quando ela voltar pode estar chovendo? Eu espero que não, até porque eu não conseguiria dizer o mesmo de outra forma.

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Uma última pergunta: por que os “tás” da atendente vieram em itálico? Não é assim que todos falamos?

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Por fim, roubei o exemplo do guarda-chuva da Gramática Pedagógica do Português Brasileiro do Marcos Bagno: altamente recomendável.

Publicado em: Imprensa