Recentemente, o governo federal passou a recomendar que as escolas implantassem o “Ciclo de Alfabetização e Letramento”, que substituiria as três primeiras séries do ensino fundamental. Como o esperado, a grande mídia não viu o que há de bom nessa proposta.
Sabemos que a seriação, em geral, se baseia em provas finais que decidem o destino do aluno: atingindo o mínimo necessário na prova, ele é promovido para a série posterior; não atingindo esse mínimo, o aluno acaba refazendo aquela série. Esse sistema, como se pode imaginar, ajuda a aumentar os índices de evasão escolar: o aluno reprovado acaba por se convencer que “não nasceu pra estudar” e deixa a escola. É exatamente isso que se quer combater com o Ciclo.
O Ciclo não prevê provas finais que decidem se o aluno passa de ano ou não. Durante os três anos de Ciclo, o aluno deverá aprender a ler e a escrever. E suas notas não o obrigarão a rever um ano inteiro de estudos (o que, cá pra nós, além de ser muito chato, raramente desemboca em aprendizado). Entretanto, isso não significa que não vamos mais avaliar o aluno. O problema aqui é que temos que pensar avaliação não como prova no final do ano, que rotula o aluno como um aluno nota 10, um aluno nota 5, um aluno nota 0… Temos que pensar avaliação como um processo que deve percorrer toda a vida escolar do educando e avaliar o seu crescimento através do curso, comparando suas notas anteriores com as atuais e as dos seus pares. Uma avaliação assim pode revelar inclusive a qualidade do trabalho sendo feito em sala de aula, uma vez que a escola vai poder observar maiores evoluções entre os alunos de bons professores. As provas pontuais dificilmente ajudarão a fazer esse tipo de análise.
A questão é que a imprensa não gosta de fazer análises baseadas na razão: eles utilizam o discurso da crise da educação para exigir o imediatismo das decisões políticas; eles preferem apontar seus dedos para os supostos responsáveis pela crise a fazer uma análise menos rasa das propostas de políticas públicas para a educação. Em outras palavras, a questão não se resume a “aprovar ou ensinar?,” como quer o editorial da Zero Hora: não se trata de aprovar sem ensinar, mas de ensinar sem que a questão da aprovação ou reprovação possa interferir de maneira decisiva no futuro escolar do educando.
É claro que para diminuir drasticamente a evasão escolar, precisamos parar de convencer os alunos de que eles não foram feitos para o mundo das letras. O mundo das letras é democrático: aceita todas as etnias, orientações sexuais, posições políticas, faixas salariais… O mundo das letras, o mundo da cultura, o mundo do saber deveria estar aberto para todos. Inclusive os filhos dos menos favorecidos, os que mais sofrem com a ineficiência do ensino. O problema é que é fácil convencê-los de que não servem para as letras, pois, se não podem ler e escrever, não lêem textos que os podem ajudar, como as leis que estabelecem que todos são iguais, que todos tem direito a educação… Por conseqüência, essas mesmas pessoas não podem exercer sua cidadania com consciência. Melhor para aqueles que podem: podem mandar seus filhos para boas escolas, podem dar acesso ao mundo da cultura e das letras aos seus filhos, podem manter seu status frente a uma sociedade que exclui toda a imensa maioria que nada pode…
Acho que já basta de reproduzir o discurso da incapacidade de aprender que temos inculcado nos nossos estudantes. Acho também que o Ciclo de Alfabetização e Letramento está aí para ajudar a suplantar esse discurso, por isso mesmo devemos apoiá-lo.
Publicado em 21/02/2011
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