A valorização do professor

Publicado em 10/09/2010

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Já que a imprensa pouco se importa em noticiar as iniciativas que valorizam a educação brasileira, acho que o Língua pode dedicar um post a isso.

A primeira iniciativa que me interessa é a do Movimento Todos pela Educação: uma Carta Compromisso “pela garantia do direito à educação de qualidade”. Entidades influentes em nossa sociedade (como a Central Única dos Trabalhadores, a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, o Conselho Nacional da Educação, a Ordem dos Advogados do Brasil, e outros 23 proponentes) assinaram uma carta que será entregue aos candidatos aos cargos do executivo e do legislativo. Quer-se, com isso, que nossos políticos afirmem seu “comprometimento com políticas públicas para a Educação.” (Leia aqui a notícia no site do Todos pela Educação.)

A carta aponta uma série de “desafios prioritários” (nas palavras dos redatores) que incluem a erradicação do analfabetismo e a universalização do ensino básico.  Sugerem os signatários da carta compromisso que a superação desses desafios demanda a institucionalização do Sistema Nacional de Educação, que garantiria a existência de politicas públicas que integrem e responsabilizem todos os níveis da federação em torno da questão da educação. A implementação desse sistema, contudo, passa pela criação de leis e políticas públicas que, entre outras coisas, valorizam o professor.

É ótimo ler que setores importantes da sociedade concordam que a valorização do profissional da educação é um dos “mínimos necessários” à implementação de uma educação de qualidade. Nas palavras dos signatários:

os futuros governantes e parlamentares, nos âmbitos federal, estadual e distrital, em parceria com seus equivalentes municipais, devem implementar de forma integral e imediata, a Lei N° 11.738/ 2008, que determina o Piso Salarial Profissional Nacional para os Profissionais do Magistério Público da Educação Básica. Complementarmente, até o ano de 2014, os mesmos devem produzir leis e políticas públicas capazes de estabelecer Planos de Carreira e Remuneração que tornem a educação uma área valorizada e atrativa profissionalmente. [O grifo é meu.]

É importante perceber que não somos apenas nós, professores, que levantamos essa bandeira. São vários os setores da sociedade que assinaram essa carta e todos concordam que é importante tornar a carreira de professor atrativa profissionalmente.

A desvalorização do profissional da educação, me parece, é consequência das escolhas da sociedade em que vivemos, que paga salários extremamente diferentes à profissionais cuja formação e importância para a sociedade se equipara. (Leia sobre isso aqui, no Língua: Sobre professores, arquitetos e médicos.) O problema é que essa desvalorização elimina a atratividade (não somente) financeira da carreira de professor. Também não podemos nos esquecer que vivemos numa sociedade em que o dinheiro fala bastante alto. Assim, mesmo aqueles vocacionados deixam de se dedicar ao ensino, buscando carreiras com maior retorno financeiro. Talvez, se valorizássemos nosso magistério, os professores, com maior auto-estima, ofereceriam um trabalho de maior qualidade. Em outras palavras: talvez, se pagássemos salários que fizessem jus ao trabalho do professor, ele fosse capaz de ensinar.

Outra coisa que é importante investigar é o que diz a tal da Lei n° 11.738/08 à qual se referem os signatários da carta compromisso. Não é surpreendente descobrir que ela é a mesma aquela contra a qual estados e municípios de todos os cantos do país se insurgiram em 2008, pois estabelece que o salário do professor público vai ser de, pelo menos, R$ 950,00 por uma jornada de trabalho de 40 horas semanais. Na minha humilde opinião esse valor não paga o trabalho do professor. (E, vale a pena lembrar a título de comparação que a governadora do estado do RS, uma das insurgentes, aprovou por volta daquela mesma data, aumento para ela mesma: 143%.)

Essa discussão sobre a valorização do professor nos leva à segunda (louvável) iniciativa que nos interessa. A Capes recentemente publicou um edital para professores da educação pública básica oferecendo-lhes um curso de capacitação nos Estados Unidos.

Sim, 20 professores de inglês da escola pública vão estudar lá nos States às custas da Capes. (Leia a notícia completa no portal da Capes.)

Essa iniciativa não apenas valoriza o professor financeiramente, mas também o valoriza pelo seu conhecimento e aposta que ele é capaz, sim, de continuar aprendendo. Mais que isso, ela dá ao professor uma oportunidade de vivência no estrangeiro, o que vai ensinar a ele muito mais que a língua que ele ensina no colégio.

Como sociedade devemos nos sentir orgulhosos por estarmos participando dessas mudanças.

Publicado em: Política