Tive a oportunidade de visitar Viena, capital da Áustria. Foram cinco dias que não tentarei descrever em um post; não conseguiria. O que quero dividir, contudo, é que Viena é uma cidade para professores.
Explico. Lá em Viena, no Naturhistorisches Museum, conheci a Vênus de Willendorf, a famosa figura feminina encontrada às margens do Danúbio, de mais de 20.000 anos de idade. Ela é pequeninha, cabe na palma de minha mão. Toda feita de barro. E com formas bastante arredondadas: uma cabeça enorme, seios grandes, uma gorda barriga, coxas grossas… A Vênus de Willendorf me ensinou a importância da figura feminina para os povos pré-históricos. E, é claro, um pouco sobre os primórdios da arte.
Acontece que Viena me ensinou muitas outras coisas: arte, história, música, literatura…
Pensando isso tudo me pareceu óbvio que o professor em Viena tem que levar seus alunos para um passeio pela cidade, em especial aos museus: ao Naturhistorisches Museum, para mostrar-lhes os dinossauros e a teoria da evolução de Darwin; ao Kunsthistorisches Museum, para mostrar-lhes arte e história. O professor em Viena vai levar o aluno até onde a arte, a história, a música, a literatura se escondem: a galeria, o museu, a ópera, a biblioteca… E, com isso, vai colocar o aluno em contato com aquele objeto que ele (o professor) quer que ele (o aluno) conheça. Essa aproximação entre aluno e conhecimento vai evidenciar ao aluno que ele também pode interagir com a arte, conhecer a história, ouvir música, ler textos. Depois disso, quem sabe, o aluno talvez possa produzir arte, mudar a história, compor músicas, escrever textos. Tudo isso porque ele sabe que a arte, a história, a música, os textos não são algo que existe só do outro lado do mundo, mas que são conhecimentos acessíveis a ele.
Todas essas conjecturas nos trazem de volta ao Brasil. Mais especificamente Porto Alegre, já que é aqui que vivo. Aqui, olhando atentamente para a cidade, vemos que ela também ensina arte, história, música, literatura… Aqui, apesar de não podermos dar aos nossos alunos a Vênus de Willendorf, podemos dar nossa própria história, nossa própria arte, nossos próprios museus: o de Paleontologia da UFRGS, onde há dinossauros para nos ajudar a ensinar a pré-história; o de Ciência e Tecnologia da PUC, que vai nos ajudar com física e química; o de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS), onde encontraremos uma série de trabalhos dos nossos melhores artistas gaúchos. E, se formos ao MARGS, não podemos deixar de ir ao Santander Cultural, na mesma praça da Alfândega, sempre com uma exposição diferente.
E, uma vez que estamos no centro, por que não dar uma volta por ali e mostrar para os alunos nossa prefeitura? O porto? A Casa de Cultura Mário Quintana? A biblioteca pública? O teatro São Pedro? A praça da Matriz? O palácio Piratini? A Catedral metropolitana? E por que não contar aos alunos a história da cidade, que geralmente ignoramos, e assim valorizar o lugar em que eles vivem? Por que não mostrar aos alunos que a história não se faz só lá em Viena, na Áustria, mas que ela se escreve também aqui, na cidade deles?
E, se conseguirmos aproximar o aluno da história de sua cidade, por que não fazer um esforço e olhar para o bairro em que a escola se localiza e descobrir, junto com os alunos, a história do bairro? Quando se estabeleceu? Quem foram os primeiros habitantes? O que de importante aconteceu ali?
A cidade ensina (sua própria) arte, história, música, literatura… Resta ao professor as revelar para o aluno, trabalhando assim seu contexto sócio-histórico: contextualizando o ensino. O trabalho do professor de língua vai ser dar ao aluno o aparato linguístico necessário para que ele se permita escrever sobre aquilo que o cerca. O trabalho do professor de história é mostrar aos alunos que a história se faz em seu próprio mundo, e não lá na Europa (em Viena) aonde o aluno pode nunca chegar. O trabalho do professor de artes é dar ao aluno os instrumentos necessários para que ele possa interagir com aquela obra de arte que foi deixada para ele pelo artista. Os professores têm todos o mesmo trabalho: aproximar o aluno do conhecimento.
setembro 23rd, 2010 → 0:09
[...] Acho que o cartum acima dá conta do recado: chega de alienar as crianças do mundo que vivem através da escola. Do meu ponto de vista, podemos contextualizar o ensino e isso não é tão custoso quanto pode parecer; basta um pouco de força de vontade para achar um jeito de ensinar que valorize aquilo que a criança conhece – sua escola, sua história, sua língua… Já falei sobre isso por aqui: Viena. [...]